O Ressurgimento do Eterno – Crônicas de Tarak – parte I

O Ressurgimento do Eterno – Crônicas de Tarak – parte 1

Nossas sessões de jogo, relatadas pelos jogadores, romanceadas na visão de seus personagens.

Eu gosto da primavera. Estamos a algumas semanas do festival de Greengrass e, apesar de não poder participar das festas, gosto de ver um pouco da alegria do povo. Por alguns dias eles se esquecem da opressão de suas rotinas diárias e se entregam à alegria das praças decoradas e das festas de sacrifício para as colheitas.

Eles se esquecem, mas eu não. As desventuras da vida me fizeram escolher outro caminho. E o caminho que preciso trilhar traz a justiça da sua forma mais suja e mais necessária!

Tomo I

Moro há muitos anos em Waterdeep e aqui vivo a vida que me foi dada pela minha Ordem, e pelo meu Mestre. (o que? seus nomes? sinto muito, não falamos sobre isso).

A vida que meus irmãos me deram exige de mim uma vigilância constante. Não somos conhecidos, e se fôssemos, não seríamos bem vindos. Abraçamos as sombras para das trevas trazermos luz. Abrimos mão do que é certo para vivermos o que é justo. E eu estou sempre aqui, para fazer o que for necessário.

A corrupção da nossa sociedade explorada pelas forças de tiranos nunca permitira que gente como eu vivesse abertamente, então precisamos desses subterfúgios. Mal sabem eles que essas sombras nas quais vivemos nos fortalecem, e o anonimato da pequena guilda em plena região do comércio barato, das mercadorias ainda mais baratas e de vidas sem nenhum valor para a sociedade era tudo o que precisávamos para conhecermos o povo. Ainda era cedo pela manhã quando caminhava pela região portuária em direção à pequena guilda mercantil que abriga, em seus porões, a sede local da nossa fraternidade.

As aglomerações de pessoas me ajudam a passar desapercebido. Por herança paterna, tenho um rosto fácil de distinguir na multidão na maior parte das cidades, mesmo nessa, tão ao norte do continente. Sempre corto caminho pelas docas, onde a quantidade de miseráveis e o descaso dos poderes públicos me acobertam. Desta vez, havia algo errado.

O número de miseráveis que migram dos campos a noroeste aumentou consideravelmente nos últimos meses. Rumores dizem que a quantidade de bestas a atacar as regiões rurais tem aumentado. Outros creditam ao frio acima do normal que destruiu plantações no último inverno… e ao oportunistas, que usam essa massa faminta como mão-de-obra de menor valia, cabe chamar a essa urbanização de progresso! Uma pequena nau de 2 velas descarregava suas mercadorias. Estivadores castigados e com chagas do trabalho árduo davam a energia de suas vidas por menos de uma peça de ouro ao mês. Sim, isso é muito errado, e me transtorna, faz o sangue enegrecido das minhas ferver e esses pensamentos ruborizam meu rosto em vontade de limpar essa exploração pelo fio da minha espada. Mas não foi o que me chamou à atenção.

Vi o imediato da embarcação entregar uma quantia em moedas ao chefe da estiva. E decerto que não era a paga pelos serviços, pois bolsa daquele porte sustentaria o trabalho daqueles pobres homens por pelo menos um mês. Não, ali pagava-se algum tipo de propina. O dinheiro a serviço dos poderosos, que de uma forma ou de outra, sempre termina em exploração do mais fraco. Vou olhar isso de perto.

Conheço alguns dos estivadores, vi-os por vezes a beberem seu pouco dinheiro em aguardente caseiro do Joe Caolho, na taverna próxima. Enquanto tento conversar com eles, noto um homem descalço, com uma armadura rudimentar e desgastada por baixo de peles animais, e uma longa barba que por pouco não esconde um símbolo de uma ordem religiosa. Bahamut, talvez. Ouvi dizer que seus sacerdotes fazem votos de pobreza e peregrinação, o que parcamente justificaria a presença de figura tão incomum a tratar dos enfermos. Ele me conta que tratava das chagas de um homem, e que este parecia esconder um segredo sobre a embarcação, o que só confirmava as minhas suspeitas.

Não gosto de trabalho em equipe. Meus irmãos e eu fomos treinados para agirmos sozinhos. Mas, assim, à luz do dia, um aliado é temporário é interessante. Compartilho com ele somente meu nome e a informação da propina. Alekc chama-se o homem. Combinamos de subir ao barco, no momento em que tentam descarregar uma enorme caixa de madeira, um tipo de jaula, nota-se pelos respiradouros.  Eu disse a ele que criaria uma distração para que ele subisse ao barco. Vi o desconforto em seus olhos. São aproximadamente 2 metros entre o cais e a embarcação, em nível superior. Entendo o receio… eclesiásticos, mesmo em peregrinação não costumam ser do tipo mais atlético. Aproxima-se um guarda da cidade, e é a distração de que precisava. Não conhecia o tal anão, devia ser novo por aqui, mas com sua presença eu aproveitei e gerei um pequeno tumulto. Disse ser da guilda mercantil e que deveria ver o manifesto de carga. Sou realmente de uma guilda mercantil, mas mantemos o mínimo de negócios para acobertar nossa real atividade, e dentre as diversas guildas que operavam seus navios no porto, demoraria horas para que algum representante legítimo aparecesse.

O imediato do navio não queria ceder o manifesto. Disse-me que me afastasse, que tudo tinha sido arranjado com meus “superiores”. Eu ainda não sabia o que ele trazia, e então percebo um baque surdo de um animal se agitando no engradado. O guarda olha pelas frestas e grita “tem gente aqui dentro! Escravos!”.

Então a peleja tem lugar! Um homem forte para seu tamanho, aquele guarda. Vi poucos anões em ação, mas ele abriu o fardo com um só golpe, enquanto pessoas saíam sujas, seminuas e maltratadas. O sol as desorientava, mas agora a vantagem seria de quem se movesse mais rápido. E, como a deusa bem sabe, eu sou bom nisso.

Sem combinarmos uma só ação, Alekc, o anão e eu investimos contra os marinheiros que se preparavam para nos atacar. Logo junta-se a nós um dos libertos. Para quem deve ter passado dias difíceis confinado, o homem levanta-se com vigor descomunal contra os marinheiros à mão nua! Nota-se que é um combatente sem par.

Sou apunhalado e antes mesmo que o sangue escorresse pelas minhas vestes, sinto o calor reconfortante das orações de Alekc. Estou acostumado a tratar das minhas feridas com ervas e noites de febre, e não com magia divina. Talvez ter aliados não seja assim tão ruim. Talvez se ele tivesse visto o que fiz depois não tivesse me curado.

Nos anos em que estudei a arte das sombras, aprendi que meus poderes são proscritos. Geralmente os que sabem o que faço morrem antes de terem a chance de contar para alguém. Mas eram muitos, e havia muito em jogo. Vi que Alekc percebeu, mas não pretendo ter que explicar o que fiz quando as sombras do barco moveram-se em direção aos meus atacantes, cortando-os como dezenas de pequenas navalhas enegrecidas.

A magia das sombras não é bonita, mas é assaz eficaz. Os atacantes tombaram. Estávamos a tratar do homens aprisionados quando o Capitão do navio sai de sua cabine, atraído pelo som de batalha, e também chegam o Capitão, notadamente superior em hierarquia àquele que nos ajudou.

Junto ao capitão, uma exótica mulher de cabelos azuis. Não sei que moda dos reinos do Sul tinge o cabelo das moças, mas ela usa uma armadura cara e reluzente, repleta de símbolos sagrados. Diferente de Alekc, esta mulher não fez votos de pobreza. Decerto que não conhece pobreza, como todos os religiosos que vivem na luxúria de templos e torres, recitando suas orações enquanto os demais de nós batalham a vida fora da proteção da igreja! Sua escolta não vem a bordo, um espadachim e um homem com trejeitos estranhos em um enorme manto carmim.

Vou ter com o Capitão e digo a ele “Vocês abusam dos inocentes, trazem dor à pessoas que não podem se defender. Eu estou aqui pelo povo. Você é a doença, e eu sou a cura”. Nesse instante, Alekc clama “ele é o cobra!”. Sim, “O Cobra” é como me chamam. Preciso aprender a ser mais discreto, ou logo Waterdeep não será mais lugar pra mim, assim como meu lar ao sul.

Não gosto da autoridade estabelecida. Ela foi criada pela nobreza que explora os pobres, e, sob o pretexto de proteger, costuma servir somente aos interesses dos poderosos, presos a um sistema corrupto. Eu devia aprender a não ignorar esses instintos. O chefe da guarda agride aquele que me ajudou. Outro guarda vem em minha direção, tentando me flanquear junto ao Capitão do navio. Eu já comentei que sou bom nisso? Em um só giro de espada, ambos são degolados. Uso de novo do poder das sombras e derrubo o capitão da guarda (felizmente, aqueles não letrados nas perícias arcanas não saberão do que se trata).

Avanço até ele e chuto ao mar sua espada! Ele sabe de algo, estava comprado. Com o devido incentivo (como ser amarrado suspenso ao mastro do navio) ele falará. Desarmá-lo é a maneira de obter informações!

Eu não contava com a moça dos cabelos azuis. Aquela, com jeito de que não conhece as misérias do mundo. Quando eu desarmo o homem, ela encrava sua linda e imaculada espada em seu pescoço. Mortos não falam. Ouvi dizer até que alguns falam, mas não conheço os caminhos mágicos pra tal. De qualquer forma, graças à inexperiência da moça, se mortos não falam, teremos que buscar papéis.

Enquanto Alekc tratava dos escravos no convés, o anão e eu descemos à cabina, em busca do manifesto de carga. Ele não traria “escravos” na descrição, mas teria o nome do comprador ou do embarcador. E estes iriam falar. Nessa hora, descubro que meu companheiro de armas chama-se Eldeth, e realmente era recém-chegado. Ele localiza documentos que dizem que os escravos seriam comprados no vilarejo de Águas Ruidosas, por 50 peças de ouro cada, e que o maior, chamado Aelle, custaria 100 peças.

Escravidão é uma crueldade terrível e a vida humana não deveria ter preço! Mas, mesmo assim, sejamos práticos: é muito dinheiro para escravos. Com tanta abundância de miseráveis na cidade, essas centenas de peças de ouro teriam uma equipe de trabalhadores para levantar um pequeno castelo. Muito dinheiro. Algo nefasto esperaria esses escravos. Não compartilhei essa resolução com o guarda, mas estava mais resoluto do que nunca a ir a Águas Ruidosas atrás desse escravagista.

Mas antes, ele receberia uma mensagem. Uma mensagem de que os poderosos deveriam aprender a temer seu povo!

Evacuei o navio, retirei todos os escravos. Peguei os suprimentos de pólvora dos pequenos canhonetes de defesa da nau, espalhei-os pelo porão e fiz um rastilho pela ponte do passadiço, até o cais, onde todos estavam. Eu subi em um pequeno toco de amarração e gritei a todos que este seria um exemplo de que a exploração do povo não seria mais tolerada. E que o mentor daquele esquema nefasto deveria se preparar, pois eu iria até ele. Acendi o rastilho, todos corremos! Uma enorme explosão, correria no cais, e o navio em chamas flutuava como pedaços de madeira.

Era hora de desaparecer. Pedi os documentos a Eldeth (precisava levá-los comigo para Águas Ruidosas), mas ele se negou a me entregá-los. Não o culpo por não confiar em mim. Eu não confiaria se não me conhecesse. Vendo a conversa daquele grupo, vi que falavam de ir a uma taverna (Joe Caolho teria novos clientes hoje) e então seguiriam viagem para águas ruidosas. Nenhuma das duas idéias me agradava: ir a uma taverna após um ato de vandalismo, sentar e tomar uma caneca de hidromel de Joe Caolho, enquanto decerto que seria perseguido pela guarda da cidade, nem mesmo viajar com um grupo daquele tamanho, tão destreinado e barulhento. Porém, precisava daqueles documentos, e precisava ter com meu Mestre para informá-lo da minha nova missão.

Tomo II

Pelas ruelas estreitas, entre mercadores ávidos por prata e bordéis ainda fechados, a fachada da “guilda de mercadores da rota oeste” abriu-se pra mim. “Preciso vê-lo”, eu disse. “eu devia imaginar que você viria. Aquilo é obra sua?”, eis que respondi “Causa e efeito. Algumas pragas só se combatem com fogo.” Um enorme tonel foi rolado para o lado, revelando uma escada iluminada por tochas.

Desci ao porão secreto que esconde as salas, biblioteca, salão ritual, sala de armas e mesmo uma pequena área de treinamento de combate da nossa ordem. Encontro a sala onde veríamos o mestre. Quando chego na sala, não o vejo e então percebo-o atrás de mim. As sombras se moldam à sua vontade e eu reconheço esse poder.

– Falam sobre um tumulto nas docas.

– Eu sei, eu estava lá.

– Você chama muita atenção.

– Eu precisava deixar uma mensagem. E, meu Mestre, a mensagem será entregue

– O que aconteceu, afinal?

– Escravos, trazidos no navio. Seriam levados para Águas Ruidosas. Um anão de nome Eldeth possui documentos que irão nos levar aos homens por trás desse esquema.

– E você quer ir atrás desses homens em Águas Ruidosas? É mesmo interessante que você o faça. A sua… “mensagem” nas docas chamou muita atenção. É bom você passar algumas semanas longe até que seu rosto não seja reconhecido. Eles sabem de nós?

– Não, meu Mestre. Imaginam que ajo sozinho. E assim será se algo der errado.

– Não esperava menos de você.

Ando apressado pela rua. Odeio a idéia de um grupo tão chamativo em um lugar tão óbvio quanto uma taverna. Conheço Joe Caolho há muito tempo, ele odiará ver sua mobília destruída e sua esposa irá reclamar muito de limpar sangue do chão da taverna. Espero que tudo corra bem. Joe Caolho é um bom homem.

Quando eu entro na taverna, ainda vazia pelo horário (o sol ainda não chegou ao alto), na mesa somente o grupo que conheci no cais. Aelle come vorazmente, como se sua vida dependesse disso, sob o olhar atento de Aleck. Eldeth ouve a conversa liderada pelo espadachim que ficou no cais, que fala e gesticula alto como se tudo o mais estivesse bem, observado de perto pela moça rica de cabelos azuis e pelo soturno homem de manto carmim. Eu não posso me demorar, vou direto a Eldeth e digo a ele que precisamos ir embora. Meu plano consiste de usar Aelle como isca, uma vez que ele é citado nos documentos, e Aleck será útil pelos laços afetivos que ele já demonstra pelo brutamontes.

Eles me pedem para sentar, perguntam quem sou. O que posso dizer? Não se passa pela minha cabeça dizer que fui salvo do cadafalso por assassinos, que faço parte de uma ordem que promove justiça assassinando tiranos pelos 5 reinos, que abraçamos a proscrita magia das sombras e a usamos para nosso objetivo. Invento uma história, qualquer coisa com relação à guilda mercantil. Devia ter planejado melhor. Eles não acreditaram. Só me resta a sinceridade;

“Sou um homem que faz o que é necessário. E necessário nesse momento é sairmos daqui.”

Ouço movimentação do lado de fora. Espio pela porta entreaberta e praticamente toda a guarda da cidade está cercando a taverna. Precisamos sair. Autoridades corruptas não irão compactuar com nossas intenções. Aviso Eldeth, Aleck e os outros dos guardas do lado de fora.

Eu não gosto de trabalhar com amadores. Aelle e os demais que não conheci: a moça de cabelos azuis que em combate matou desnecessariamente quem poderia nos explicar o que estava acontecendo e seus dois acompanhantes que tagarelavam incessantemente na taverna disseram que sairiam pela frente e nada tinham a temer. Ou confiavam em deuses que há muito me abandonaram.

– Joe, sua taverna tem saída dos fundos?

– Por que, vamos ter problemas na minha taverna?

– Não se você me indicar a saída.

– A adega tem saída para os fundos.

A moça de cabelos azuis percebeu sua sensatez e seguiu-nos, Aleck, Eldeth e eu, pelos fundos. Uma moça muito bonita, mas não foi exatamente furtiva com aquela armadura reluzente. Felizmente conseguimos sair da taverna e evitar os guardas. Vamos aguardar no portão da cidade. Espero que os demais não sejam presos ou mortos, pois sem Aelle, não tenho um plano para descobrir a mente criminosa por trás do tráfico de escravos.

Mas mesmo que ele não apareça, eu irei a Águas Ruidosas. E farei aquilo em que sou melhor. Farei o que for necessário.

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2 Respostas para “O Ressurgimento do Eterno – Crônicas de Tarak – parte I

  1. Muito bom! Fora uns errinhos de português aqui e ali dá pra ver legal como sua personagem vê o mundo! Vou tentar fazer essas crônicas para o meu anão também. ^^

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