O Milagre

Quando vi que a vida daquele homem pequenino seria perdida senti o desespero maior em minha alma.

Eu viera junto com o grupo que me acompanhara desde o incidente no navio. Vinha buscar o pai de um menino que me fizera prometer encontrá-lo. Ele estava amarrado e assim que o libertei ele levou uma pedrada de um inimigo que tentava me acertar dum penhasco. Estava quieto mas vivo e debrucei-me sobre ele ainda tentando reanimá-lo. Me preparava para tentar curá-lo com o Lay on Hands quando ouvi um grito de dor. Ergui os olhos procurando alguém ferido e vi o corpo do anão rolando penhasco abaixo estacando ao meu lado, fazendo meu coração gelar. Minhas mãos ficaram paradas no ar aguardando a decisão de quem salvar primeiro, porque talvez eu só tivesse forças para um deles. Depois de um segundo de confusão voltei-me para o anão afinal Dévon me parecia tranquilo, mas aquele estava gravemente ferido.

Impus as mãos sobre ele e tive esperanças de sua melhora mas… Ele estava morto. Era apenas um corpo que representava um companheiro de outrora. Talvez eu tivesse feito uma expressão de choro enquanto segurava Eldeth em meus braços, pois o Clérigo de Bahamut tão desesperado quanto eu correu para onde estávamos cheio do mesmo temor. Ambos sentíamos o espírito da morte ali, no meio de nós.

Comecei a sentir uma dor como se perdesse mais alguém da família. Percebi que me apegara àqueles amigos de viagem. Eu me sentia responsável por eles, mesmo não entendendo porquê. Abandonando minhas perguntas me foquei em trazê-lo de volta. Sentimentos de desespero e força se misturavam em mim. Roguei pela alma dele que me parecia ser a alma de um homem bom, até mesmo ingênuo, relembrando do dia em que o conhecera. O pobre anão tentava fazer o seu dever sendo enganado pelo próprio superior, o humano de alma podre que aniquilei no calor da revolta, causa de grande arrependimento… E da penitência que ainda cumpria. Penitência merecida…

Ainda assim, apesar de minhas visões, enfraquecimento… Da febre e da cólera que me abateram, Torm me abençoou mais uma vez mostrando sua misericórdia incalculável, muito maior do que seus paladinos sonhariam. Lembro-me que estava na mesa de uma taberna e senti dor de cabeça, tonturas. Uma criatura bondosa, Aleck veio a mim quando próxima de desfalecer e permaneceu a meu lado sem que lhe pedisse que ficasse. Sei que se preocupou comigo pois ao amanhecer ele ainda estava lá, cansado, desfalecido quase de forma angelical a meu lado. Não queria acordá-lo, mas eu ouvia um martelo batendo dentro de mim, me puxando a sair da estalagem, montar no cavalo e correr até a Fortaleza do Pendor. “Mas ainda há muito por fazer” Suspirei.

Totalmente desperta lavei os olhos e observei meu reflexo na água da tina. O cabelo azul molhado grudava no rosto. Mais uma vez me questionava sobre o porque daquela escolha. Aquele caminho. Eu poderia ter ficado na Ordem o quanto quisesse. Defendendo os que eram quase familiares… Defendendo o que eu chamava de lar. A voz do mestre soava como um bálsamo trazido pelo vento: O mundo é o seu lar. Você deve sair e aprender com ele, expandir a sua bondade. Os teus sonhos lhe guiarão.

“Torm…” Sussurrei olhando a janela por onde via um menino alimentar os cavalos na estalagem. Torm me dissera com suas palavras sem sons que por onde eu passasse alguém precisaria de mim. O menino… E a esposa… Aguardando a volta de Dévon.

A água em suas minúsculas ondas me fizeram lembrar do anão batendo em minha porta, segurando grandes baldes de água. Olhei-o com olhos indagativos e ele deu de ombros. Peguei os baldes de suas mãos e ele fechou a porta para mim. Quase derrubei aqueles baldes de tão pesados, corei e agradeci por não ter sido vista. Chegara a conclusão enfim, que era um homem gentil. E forte, era o que me diziam sua barba e cabelos ruivos e os olhos pequeninos.

E agora eu pedia fervorosamente pela sua alma forte e boa. Ele seria uma perda maior que muitos homens que Torm me ajudara a salvar. “Tenha piedade deste soldado que batalhou com coragem no exército da justiça, Torm…”

Tocando a pele e a barba daquela criatura eu sentia o poder fluindo em mim como uma luz branco azulada por todo o meu corpo, envolvendo o corpo dele como uma aura. As mãos do clérigo sobre as minhas, com força endireitaram seus ossos, estralando-os. Meu coração estremecendo enquanto eu pedia a Torm que me ajudasse, mesmo que eu não merecesse. Que me desse forças para não avançar e cortar ao meio Tarak que ironizava sobre o próprio erro. Seu veneno escorria pelo ar mas me contive. O toque do clérigo, a energia que fluía mantinham-me presa ao momento divino. As cicatrizes de Eldeth fechavam vagarosamente. A aura branca aumentava e se espalhava pela atmosfera do local. Tudo silenciou e eu era apenas instrumento de uma força maior. A energia saindo de nossas mãos e o questionamento sobre o espelho d’àgua encontrara resposta.

Um clarão muito grande se fez a ofuscar meus olhos. Eu os fechei ainda em prece e o turbilhão dentro de mim também se calou. Abri os olhos. Vi a pele corada e lisa das feridas de outrora, o semblante calmo. O Clérigo olhou para mim assentindo com a cabeça: Está vivo, mas muito fraco.

Tive certeza que o pulsar quase imperceptível não era imaginação minha. Embaixo de meus dedos o sangue palpitava na garganta de Eldeth. Uma lágrima caminhava quente no meu rosto quando fechei os olhos e senti minha armadura pesada demais para mim. Eu tinha vivo o pai que viera resgatar e vira uma alma merecedora reviver. Eu não poderia estar mais feliz.

Eu não conseguia me mover, mas isso não importava. Eu tinha embaixo de meu corpo o calor da vida fluindo no homem ruivo.

A imagem das crianças de outrora desapareceram. Eu via agora o sorriso de um menino segurando alguns cartazes na mão ao avistar o pai.

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