Corvo de Madeira

Introdução de personagem para a nova campanha de D&D 5e

“Eu já estou morto”, disse pra si mesmo, sujo e maltrapilho.

Em parte, ele se sentia assim. Havia vivido dezenas de vidas dos homens, e se lembrava de tanto, que mesmo os anos de contemplação e austera disciplina no monastério falham em tornar mais leve.

“Eu conheço você, monge! Não são muitos os elfos vivendo por essas bandas. Passarinho-alguma-coisa, não é?”, perguntou rindo a estalajadeira da velha pousada na encruzilhada, com sua risada fazendo corar as bochechas brancas e balançar os seios que lutam contra o tecido gasto das roupas, gastas porém limpas, que podem um dia ter sido tingidas de verde.

O monge concordou, com uma discreta aquiescência, que a identificação era positiva. Não que estivesse correta, mas ele também não estaria disposto a corrigi-la. Há décadas o vigoroso elfo de cabeça raspada (como cabia a todos os monges de sua ordem) e pele acobreada atendia por outro nome: seus irmãos monges o apelidaram de Corvo de Madeira.

“Só estou procurando por uma moça de baixa estatura que passou por aqui há algumas horas. Era acompanhada por 3 sujeitos, um deles pode estar ferido”. Após falar, ele percebeu que a estalajadeira queria conversar mais. Talvez amenidades ou ter notícias das cidades próximas, mas ter sido tão direto a frustrou. “Bem, agora está feito”, pensou. “Da próxima vez eu pergunto por alguma fofoca das guildas do porto de Águas Profundas ou qualquer coisa que o valha”

Não que o Corvo de Madeira fosse especialmente habilidoso nas conversas de estalagem. Ele tem sido monge desde que seu vilarejo deixou de existir. E ele morreu pela primeira vez.

80 anos atrás, bem próximo àquela estrada, bem próximo àquela estalagem, outra raça vivia ali e o Corvo de Madeira vivia entre eles, entre seu próprio sangue, atendendo por um nome que ele nunca mais pronunciou, para que o tempo varra suas lembranças e sua vergonha para outras eras.

O pequeno vilarejo élfico tinha lugar em uma silenciosa floresta à sombra dos Montes Estelares. Poucas dezenas de elfos que viviam em harmonia com os monges do monastério milenar montanha acima, e com os poucos comerciantes e peregrinos que passavam por ali a caminho do templo. Para ser sincero, “harmoniosa” não era a palavra correta: os viajantes por muitas vezes passavam por baixo da cidade sem perceber as casas acima das copas das árvores e os monges sabiam que algumas famílias élficas viviam nas florestas dos arredores, e só.

Então, veio o Ano da Morte Silenciosa. Uma praga afetou todas as populações humanas e suas cidades sujas e superpovoadas. A oeste dali, os campos dourados, um dos maiores cinturões de grãos da região, tornaram-se campos de doença e morte. O dourado que dava nome à região deu lugar ao marrom-acinzentado da putrefação que cobria o ar, trazendo medo e fome aos homens.

Conforme as pessoas foram buscando a floresta, em busca de comida ou mesmo somente fugindo da peste, o equilíbrio entre os elfos e a natureza da floresta foi abalado. Queimadas para pequenos pastos, derrubada de árvores para novas casas trouxe àquela comunidade uma sensação humana: o medo. Entre os homens que buscavam novos espaços fugindo da doença, e os elfos que buscavam manter sua comunidade da mesma forma que existiu por séculos, sangue jorrou. Onde a o medo supera a razão, o ódio supera o diálogo.

“Os livros humanos não contarão essa história. A vida é tão efêmera e a história aos olhos do tempo é algo tão frágil, que além dos elfos amedrontados que abandonaram suas casas e dos homens que morreram doentes, ninguém mais se lembra dessa batalha”, divagou.

Ao se perceber com a mente em um passado distante, o Corvo voltou sua atenção ao presente, e percebeu que estava correto, a estalajadeira realmente queria conversar.

“… e, no final, eu disse pra ele levar o cachorro dele e toda aquela sujeira para outro lugar e… Você concorda, Passarinho?”. Ele não sabia o que responder. Sua mente que tanto já tinha visto (comparado ao tempo de vida dos homens) tinha estado em outro lugar e ele estava embaraçado por não saber o que responder, quando um homem os interrompeu, tirando essa responsabilidade dos seus ombros.

“Pare de chamar esse orelha-de-faca de ‘passarinho’, Rebeca! Este é o Corvo de Madeira, da escola do punho de aço de Shou Lung! E você, Corvo, uma pena que esteja aqui”

Ele reconheceria essa voz antes mesmo de se virar. Mas olhou, mesmo assim. Montec, um homem rude que há muito já deixou seu auge, expulso da guarda de Águas Profundas há alguns anos por matar um cadete em treinamento, perambula pela região, tendo seu nome sempre associado a brigas, bebedeiras e serviços obscuros sobre os quais não se fazem muitas perguntas. Seu rosto bruto sorria com uma satisfação sem explicação ao monge. Ele vestia uma velha armadura de couro fervido, gasta e com um remendo onde outrora havia o símbolo da guarda de Águas Profundas. Ele vestia-a sempre. A novidade era o velho e enferrujado gládio na sua mão direita.

“Por quê pergunta sobre a menina? Curioso, eu nem sabia esses hanflings tinham mulheres na sua raça. Eu nunca tinha visto uma, mesmo nos mercados de Águas Profundas”

“O que você quer, Montec? Não conseguirá cortar um bife com essa faca velha. Guarde-a antes que alguém se machuque”

“Bife? Ah! Essa espelunca não serve um bife há meses e eu nem mesmo tenho dentes para isso” sorriu, mostrando uma enegrecida dentadura de madeira. “Mas um homem tem que garantir seu sustento”

“Então você viu a moça que procuro. Estou certo que pode me ajudar a encontrá-la”

O Corvo olhou em volta. Rebeca, a estalajadeira, estava assustada. Devia temer pela integridade do seu estabelecimento. Uma choupana, com certeza. Um salão com paredes de pedra, duas mesas pequenas e uma larga, que mal acomodariam 15 pessoas, uma escada que deve levar aos cômodos superiores, de madeira, uma lareira onde um caldeirão de ensopado descansa preguiçoso e um balcão encardido que deve ter visto muitas histórias. Um lugar pobre, mas com certeza a única posse e o sustento de uma família igualmente pobre.

Montec quer briga. A satisfação que ele vê em seus olhos é a sede por uma boa luta. Mas uma briga dentro da estalagem irá danificar um lugar já tão precário. “Podemos ir lá fora e você me conta sobre a moça. O pai dela me pediu pra localizá-la. Um mercador viajante de nome Corrin. Ele é um amigo de Shou Lung.”

“Vou te falar sobre a moça, sim. E sobre os homens generosos que estavam com ela. Ele me deu 1 electron para cuidar de quem viesse atrás deles. Eu imaginava algum aventureiro, mas Ah! Um monge! Vai ser um prazer a mais cuidar de um tipo como você. Quase faria de graça.”

“Montec, eu não quero brigar. Nem mesmo estou armado. Só preciso saber para que lado eles foram e há quanto…”

Ele ia dizer “tempo”, mas aquele homem de quase 100 quilos se lançou sobre ele com um grito. Um homem desse tamanho não deveria se mover tão rapidamente, mas Montec não é só uma besta. Sua raiva é temperada por anos de treinamento. O Corvo foi mais rápido e se esquivou. A lâmina cravou no balcão atrás dele e rapidamente Montec a soltou, junto com uma tábua podre.

Montec virou-se e se viu que o Corvo havia se afastado do balcão e se encontrava no meio do salão. Atirou uma cadeira que se quebrou em várias partes ao errar o Corvo. Rebeca começou a gritar, pedindo que parassem de brigar, mas Montec não ouviu e, afastou a mulher com a mão livre. Rebeca cai em direção à lareira, e derruba o caldeirão de ensopado com estrondo.

Montec já investe novamente. Atira a tábua que desprendeu do balcão contra o Corvo, que desvia o tronco e a pega no ar. Agora o Corvo tem uma arma.

“Eu já estou morto”, repetiu pra si mesmo o Corvo de Madeira “e quem já está morto não teme mais a morte”.

Quando Montec investe novamente com seu gládio, o Corvo desvia a arma usando a tábua de madeira, ao mesmo tempo em que gira o corpo e usa essa velocidade para chutar Monte no estômago. O homenzarrão cai por cima de uma mesa e com o seu peso, homem e mesa caem ao chão. Aproveitando a situaçao, o Corvo usa a mesa ao lado para se impulsionar em direção ao homem caído e com todo seu peso, projeta um grande golpe com a tábua na cabeça de Montec. A tábua se parte ao impacto, seu braço entorpece com o impacto, mas o resultado foi alcançado. A briga acabou e Montec está inconsciente.

No quarto de hora seguinte, o Corvo ajudou Rebeca a se recuperar, amarrou os braços e pernas de Montec, quando achou o Electron que ele havia recebido. Essa moeda foi cunhada em algum lugar distante, ele não reconheceu a efígie. “Fique com este dinheiro para cobrir os danos, Rebeca”, disse ele ao dar a estranha moeda para a estalajadeira. “Guarde essa arma com você e mande alguém buscar uma patrulha na cidade pra levá-lo. Não o solte antes disso, não sabemos como ele irá reagir quando acordar.”

“Obrigada, sr. Corvo. Esse verme sempre arruma problemas aqui mas nunca ninguém havia conseguido detê-lo. Teve uma vez em ele bebeu meio barril e…”

“Rebeca, desculpe não poder ouvir toda a história, mas eu preciso achar essa moça. Ela foi raptada e o pai dela não tem recursos para ter ajuda das autoridades.”

“Sr. Corvo, o sr. não pode ir agora. Vai começar a chover e os campos não estão seguros. Os fazendeiros têm falado de um lobo gigante atacando o gado e mesmo viajantes têm mencionado marcas dessa fera na floresta. Eu posso dizer qual estrada eles pegaram, mas só se o sr. Corvo passar a noite aqui. O meu ensopado já era, mas tenho um vinho que provavelmente não virou vinagre…”

“Monges não devem beber, e meu povo não dorme, mas você está correta. Devo partir após a chuva.” O lobo não o preocupava. Ele outrora pertenceu ao povo da floresta, consegue lidar com animais. Mas ele não gosta da chuva.

“O seu estábulo está de bom tamanho pra mim. Trago uma boa capa para me cobrir, e o descanso ao ar livre será revigorante. Além do mais, posso partir sem incomodar seus hóspedes”

“Eu só tenho um hóspede. Mas se aquele gnomo não desceu com o barulho da briga, não vai ser você que vai tirá-lo do quarto. De qq forma, não vou insistir. Descanse onde quiser. Dizem que receber um monge em casa dá sorte. Teve uma vez que um tio meu quando estava viajando…”

Rebeca falou sozinha pela próxima hora inteira. Ele ouvia. Concordava com algo, fazia uma pergunta ou outra pra se mostrar interessado, mas sem nenhuma pretensão de conduzir o assunto. Não era um sacrifício pra ele, pois um monge precisa tb se conectar com as pessoas para um elfo era ainda mais difícil.

Semanas atrás ele enterrara um amigo monge. Morto de velhice, por uma gripe forte que pegou no último inverno. O velho monge Anphir havia sido entregue ao mosteiro quando criança há 60 anos, pois seus pais não tinham como alimentá-lo. A criança magra e assustada foi entregue ao Corvo de Madeira, cresceu e tornou-se um homem. Um amigo. E o Corvo o enterrou, como a tantos outros irmãos e irmãs. A longevidade do elfo o distancia dos homens. Momentos como esse são raros e necessários para que ele se lembre daqueles que precisam de proteção. E quando enterrou Anphir, o Corvo de Madeira sentiu-se como morrendo mais uma vez.

O estalar de um grande trovão lembra a ambos que ele precisa se preparar e descansar. Ele não trazia dinheiro para pagar pela estadia, e nem Rebeca queria aceitar. Então ele dá a ela uma pequena ave entalhada em madeira q ele trazia consigo. Entalhar é um passatempo há muitos anos, e as aves são uma boa lembrança de sua vida na floresta. Talvez daí tenha vindo a inspiração para o nome que seus irmãos lhe deram na vida monástica, mas ele nunca saberá, pois já enterrou a todos. Ela agradece o presente, esboça a tentativa de iniciar mais uma história, mas um segundo trovão a interrompe, e o Corvo vai para o feno dos estábulos, buscar abrigo da chuva e descansar.

Coberto por uma capa de pano encerado, encostado sob a cobertura do estábulo, o monge descansa. Elfos não dormem, mas se permitem um tipo de relaxamento onde a mente vaga por outros planos ou mesmo se perde em memórias. E no caso do Corvo de Madeira, a sua mente o leva de volta ao jovem elfo sem lar, cujo vilarejo sobre a copa das árvores foi destruído por homens doentes, famintos e amedrontados. Era a estação das chuvas, e nenhuma árvore conseguia manter seco aquele elfo cujo frio do corpo era combatido por um coração que ardia em ódio. Ele tentava se abrigar, mas a água das chuvas sempre alcançava seu caminho até o rosto do jovem elfo, onde se misturava com suas lágrimas de dor.

As semanas se passaram, ele se alimentava de raízes e poucas frutas q sobreviviam à chuva, até que se viu de frente ao monastério dos Montes Estelares. Aquele mesmo que era o destino dos peregrinos que ele observava de cima das árvores quando ele tinha um lar.

Ele entrou no mosteiro, pensando em roubar comida, talvez roupas secas, e acabou encontrando a paz de espírito de que ele precisava. Um sentido para sua vida, de aperfeiçoamento e treinamento austero para o corpo e sua mente. Ali, aquele elfo morreu pela primeira vez para que o Corvo de Madeira encontrasse se lugar no mundo.

Ao longo dos anos, ele treinou. Domou sua mente, levou seu corpo à excelência e encontrou uma nova família junto à Escola do Punho de Aço de Shou Lung. Um templo como esse não era visto na terras do oeste com tanta freqüência, mas ele também não era estranho aos moradores. Diz-se que foi construído ali por um nobre, como recompensa a um lutador que havia salvo uma cidade de uma invasão de povos do submundo há séculos atrás. Outros dizem que foi fundada como um gesto de intercâmbio cultural com os povos do Oeste. Ao longo desses 80 anos, o Corvo se lembra até mesmo de ter ouvido que o monastério havia sido erigido na montanha para guardar um artefato de grande valor. Se alguma dessas histórias é verdadeira, ele não sabe. Ele mesmo já contou diversas dessas histórias aos mais novos, escolhendo-as conforme melhor encaixasse um ensinamento ou uma lição de moral.

Não importava a origem perdida no tempo daquele monastério milenar, ele hoje era um templo dedicado a homens e mulheres de virtude, e o Corvo de Madeira conquistara seu lugar entre eles. E então sua alma encontrou paz.

E assim como aquela chuva havia cessado 80 anos atrás na floresta, também havia cessado a chuva que o impedia de deixar a estalagem. Ele tinha uma missão, e havia se comprometido a resgatar aquela menina, a filha do velho Corrin.

Ele já estava morto, ele bem sabia. Mas só alguém que já havia experimentado a morte poderia entender e valorizar a vida.

A filha de Corrin voltará para casa.

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