Q

Conto introdutório de personagem para uma campanha de Shadow of the Demon Lord – The Hunger in the Void

Urth está acabando em magia podre e corrompida.

Q_rosto

Magia tornou-se selvagem e imprevisível em diversos locais. Os rumores falam de uma aldeia a oeste do Mar de Sal onde os mortos simplesmente não descansam. A capital foi coberta por um nevoeiro e diz-se que seus habitantes não vêem a luz do sol há semanas.

O sul, dizem, está gelado como nunca e mesmo as feras estão congelando nos campos, como se o velho invernal da antiga fé tivesse acordado em fúria. Exércitos de orcs criados por grandes magos varrem o interior do continente, sem nenhum motivo aparente além de espalhar miséria e morte, salgando campos das terras baixas e passando à tocha vilas inteiras. E os demônios  apodrecem pessoas a um simples toque e marcam suas almas para sempre.

Mas não é a lâmina de um orc ou a fome de um demônio que preocupa o cidadão comum. É a fome. Cevada congela nos campos ao sul e a carne dos animais está corrompida e pustulenta. Comida é para poucos e pessoas desesperadas fazem coisas desesperadas.

“Deixe-me passar”, disse a taverneira enquanto carregava um grande caneco de cerveja e uma porção de guisado em uma tigela de madeira. “É para o comandante”.

Ele tinha ordens expressas de não permitir a entrada de niguém, mas por algum motivo essa ordem exerceu um apelo irresistível sobre ele. Ela nem mesmo era bonita, acima do peso, com dentes podres e cabelo sujo. Ele girou a chave, e o som do ferrolho, a porta se abriu. A taverneira sorriu, consciente de que os truques da infância ainda funcionam. Em outros tempos, magia era para poucos, mas o mundo não é mais o mesmo. E nem os magos.

Uma vez dentro do quarto, deixou de lado a cerveja e o guisado e começou a vasculhar a mesa do comandante. Era uma missão delicada: a taverneira precisava descobrir a rota de movimentação das tropas imperiais e informar seus… associados. Não é saudável dever favores a eles, e a taverneira devia vários. Eles querem saber para onde o exército irá se mover, para comprarem os estoques de grãos e couros antes da chegada das tropas e revenderem com algum lucro. Ou assim lhe disseram. Conhecendo a política do reino, ter favores a cobrar do ministro da guerra de Caecras pode ser mais valioso do que um baú de moedas.

Depois de localizar a informação e rearrumar os papéis, uma pequena indulgência: colocar pimenta de Pruul na carne. Os habitantes de Pruul podem ser questionáveis em diversos aspectos, mas não na pimenta mais forte de todas as províncias do império. A taverneira pensou que seria divertido estar por perto quando o comandante provar esse prato…

De repente, a porta se abre. Uma mulher entra e a surpreende. A mulher derruba a bandeja de sopa que trazia, tomada pelo susto. As roupas são diferentes mas as mulheres são idênticas.

Q

Há tempos Q. assume a identidade das outras pessoas. Ele faz isso há tanto tempo que nem mesmo se ocupa de ter um nome para si mesmo. Desde que descobriu quem ele era – ou melhor, quem ele não era – que desistiu de ter uma só vida e passou a viver várias.

Não é de hoje que os seres dos planos mágicos jogam com as vidas dos homens. Q. passou toda a sua vida achando ser Quincy, filho e aprendiz de um mago de algum renome. Achava que herdaria suas posses, sua profissão e seus clientes – não eram famosos como os magos da ilha flutuante em Caecras, com sua torre de treze andares sempre espiando sobre os nobres do Império, sempre há trabalho para quem pode fazer chover sobre um campo, uma poção do amor ou encantar uma lanterna para iluminar sem óleo – mas há alguns meses, em uma noite sem lua, tudo mudou. Em uma noite de febre e dor, seu corpo mudou, tornando-se algo grotesco, com a pele similar a barro, com pêlos de animais, protuberâncias que se assemelham a pedregulhos ou pequenos galhos, como um boneco esculpido por uma criança sem talento.

Ele já havia visto isso nos livros de seu pai: criaturas faéricas às vezes sequestram crianças recém-nascidas, para rituais profanos ou mesmo pela curiosidade em ver um humano crescer entre eles, e as substituem por criaturas encantadas, criadas com uma alma criada por magia faérica e encantadas com o véu da ilusão. Elas crescem sem saber o que são até que a magia do véu enfraqueça e sua verdadeira forma apareça. Criaturas como ele costumam ser sacrificadas quando identificadas, mas pela natureza estudiosa de seu pai, ele foi escondido e estudado, ao mesmo tempo em que se descobria.

Não era mais um filho, não era mais o herdeiro de um legado. O amor sumia dos olhos de seu pai, sempre cortês mas agora distante. Seu filho estava morto, provavelmente, e estava claro que ele teria optado por viver na mentira se pudesse.

Quincy foi embora, e com o passar dos meses, deixou de ser Quincy e passou a ser somente Q., com muitos rostos e muitas vidas. Foi um cavalariço, foi um boticário, foi a amante de um mercador, foi um goblin tigrado na cidade baixa. Hoje ele é uma taverneira, mas acabou de ser descoberto.

“Não grite”, ele ordenou. Ter sido aprendiz de um mago tem suas vantagens, e conseguiu o silêncio da moça por tempo suficiente de pular pela janela. Ele deixou roupas masculinas sob uma árvore próxima. Só precisa conseguir chegar a ela, trocar de roupa, e desaparecerá novamente.

Será outra pessoa mais uma vez. Não é bom repetir os rostos, alguém sempre pode estar em seu encalço, pelas coisas que ele faz pelos seus associados. Um acordo de mútua proteção e uma eterna troca de favores. Ele não pode fazer isso para sempre, ele sabe. Mas em tempos como estes, ninguém está muito preocupado com o dia de amanhã. “Para sempre” parece ser algo relativo à sombra que os demônios fazem sobre Rûl.

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